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E se Dom Pedro II virasse presidente? Historiador analisa como seria o monarca nos bastidores de Brasília

A História não é uma ciência que trabalha com cenários hipotéticos, mas a nossa criatividade pode nos levar a criá-los. Seguimos então nesse exercício imaginativo que nem de longe pode ser chamado de ciência. 


Dom Pedro II nasceu no ano de 1825 já com seu futuro determinado: ser o sucessor de seu pai, Dom Pedro I, como imperador do Brasil. 


Esse futuro foi traçado pela morte de seus dois irmãos homens ainda bebês. A legislação brasileira aceitava que mulheres se tornassem monarca, mas isso só poderia acontecer na ausência de uma criança do sexo masculino. 


Durante toda a vida, o imperador se demonstrou muito pouco atraído pela ritualística da monarquia e pela politicagem brasileira. Era um sacrifício ter que participar de jantares de negócio, enquanto só queria estar em seu quarto lendo. 


Um imperador sábio


A questão da leitura e dos estudos é algo engraçado, porque de um lado era intencional para aliados do imperador aproximar a sua imagem do imperador sábio de Roma, Marco Aurélio, só que por outro lado, essa era realmente a natureza de Pedro II, um homem apaixonado pelos livros e pela leitura.


Isso se refletiu em sua posição como governante em que financiou o estudo de grandes escritores, músicos e cientistas. 


Um jovem no poder


O Golpe da Maioridade fez Pedro II assumir o poder ainda como um adolescente. Com seus 15 anos, lá estava sendo coroado e recebendo em mãos a responsabilidade por um país de tamanho continental. 


A sua sorte foi que esse desafio veio em um momento em que o Brasil tinha uma geração de grandes estadistas. Homens como Paraná, Hermeto Leão, Nabuco e Araújo e Lima. 


Com a criação da figura do “primeiro-ministro”, estes se tornaram fundamentais para que Pedro II conseguisse reinar. E ele não demorou a imprimir a sua digital na forma de tocar os negócios do Império. 


As ideias de Pedro II


Defendia a liberdade de imprensa, a participação dos dois partidos no poder, a soberania nacional, o investimento na educação e o crescimento da infraestrutura do Brasil.


O perfil inteligente e ponderado e essa capacidade de fazer lados opostos conversarem, poderia ter feito dele, em um cenário imaginário, um grande presidente.


Em tempos de polarização como o que vivemos hoje, um homem capaz de ser referência para diferentes lados e engajá-los em um grande plano único seria a solução para muitos dos problemas do Brasil atual. 


Por outro lado, ser presidente é muito diferente de ser imperador. Um presidente da República pratica a política profissional, está o tempo todo tendo que articular, negociar e jogar estrategicamente. É a política na sua mais pura existência, coisa que Pedro II odiava. 


Um presidente em uma República instável como a brasileira precisa também estar pronto para enfrentar seus inimigos com força. Afinal, quantos presidentes no Brasil não sofreram golpes ou tentativas de golpes? Pedro II nunca demonstrou a mesma força do pai para responder esse tipo de situação. 


Dom Pedro II como presidente do Brasil


Caso ele renascesse e ocupasse a cadeira presidencial, teria que lidar com todas essas infelicidades e talvez mudar a sua própria maneira de ser. Passaria nos corredores de Brasília cabisbaixo e depressivo, tendo que lidar todos os dias com aquilo que mais detestou em vida.


Hoje, o eleitorado é muito influenciado pela internet, ambiente em que o argumento certeiro e convicto, tem muito mais alcance que a ponderação. Lacrar ou mitar é o que faz alguém ser conhecido o suficiente a ponto de receber tantos votos.


Como alguém que não era conhecido por discursos inflamados poderia se dar bem neste cenário? A estrutura política atual ia posicioná-lo como mais um do centrão ou um político com gosto de xuxu. 


A minha conclusão é que não existe hoje um ambiente para florescimento de alguém como Dom Pedro II. Ele é estável demais para um mundo que só se atrai por espetáculo. 


Infelizmente, caminharemos em 2026 para outra polarização de quem grita e promete mais, enquanto perfis que poderiam fazer grandes lideranças, não encontram cenário fértil para crescer.


Luiz Ottoni,

Historiador pela UFMG.


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